O SERVIÇO PÚBLICO DO FUTURO (CRÍTICA A MODA PORTUGAL)

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Um programa que, apesar dos erros, prova que é possível fazer-se serviço público de uma forma leve e pouco aborrecida.

Não percebo por que razão Moda Portugal é transmitido na RTP África e RTP Internacional, mas não nos canais para o público residente no nosso país. Tendo em conta que o programa viaja apenas por espaços nacionais, torna-se assaz intrincado, para um cidadão residente no estrangeiro, adquirir os artigos que são mostrados.


É que ter-se algo mais português que Moda Portugal acaba por ser praticamente impossível. Embora o orçamento do programa seja visivelmente limitado, a apresentadora Sandrina Francisco faz imensas viagens por este Portugal fora, com o fito de mostrar os lugares, a moda, os criadores e o talento.
E é precisamente esse o conceito leve, mas sério, simpático, mas empenhado em trazer algo de diferente, do programa.


Além disso, a moda de que se fala passa um pouco por todas as áreas, concedendo-se a este produto televisivo, de meia hora, um valor acrescentado.
Contudo, Moda Portugal é um programa fraco no que toca a pôr em prática os seus intentos:
As entrevistas nos espaços visitados são, na sua maioria, feitas a apenas uma pessoa - geralmente aos criadores dos artigos ou aos donos dos espaços - tornando esse momento pouco atractivo e pobre, no sentido em que tudo é baseado na dualidade pergunta-resposta e a conversa é complementada unicamente com imagens dos artigos da loja ou do museu em questão.


Mesmo quando são feitas entrevistas a mais do que uma pessoa, não existe interligação entre os chamados vivos. Ou seja, conversa-se primeiro com uma pessoa, a seguir com outra e, só depois de terminado todo esse diálogo, se passa para a seguinte. Aqui faz falta um certo jogo, ou estrutura, que as reportagens jornalísticas têm: A apresentação do tema em primeiro lugar, antecedendo uma parte da conversa com uma das entidades, depois uma voz off intercalada com outro vivo diferente do anterior e voltando-se finalmente à primeira pessoa com quem se falou, por exemplo.


Seria também uma boa ideia falar-se com clientes das marcas, de modo a haver uma maior aproximação ao telespectador e a perceber-se quais os pontos positivos e negativos dos artigos visados.
É assim que se cria dinamismo. Não basta ter-se flashes de luz entre planos e panorâmicas feitas em modo de reprodução rápido.


As perguntas das várias entrevistas acabam também por ser pouco exploradoras, no sentido em que nunca variam do habitual "Acha que a moda portuguesa está no bom caminho?" e "Fale-nos dos vossos serviços". Enfim, aborda-se muito o desenvolvimento das várias marcas e do seu lugar na moda portuguesa, mas muito pouco os produtos que estão à disposição, nomeadamente os preços, as tendências, os estilos, etc. que, ao fim e ao cabo, são o que interessa aos telespectadores.


À parte disto, o estilo e a atitude da apresentadora podem parecer demasiado friendly à primeira vista, mas, tendo em conta o tipo de programa, enquadram-se perfeitamente. Convém salientar, ainda, o modo correcto como coloca o microfone de mão, algo que muitos jornalistas descuram no seu trabalho.


Em suma, este é um programa com imenso potencial que, se tivesse mais investimento por parte da RTP e fosse transmitido, por exemplo, na RTP2, poliria as suas arestas, faria ainda mais e melhor serviço público e teria, com certeza, uma audiência satisfatória, ao contrário de alguns programas desse canal que, de tão aborrecidos e obsoletos, não interessam nem ao menino Jesus.

Moda Portugal é transmitido semanalmente na RTP Internacional e RTP África e encontra-se na quarta temporada.

Avaliação: *


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