UMA TEENAGE SOAP DE VALOR ACRESCENTADO (CRÍTICA A SWITCHED AT BIRTH)

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Parece impensável, mas a história da vida de duas raparigas trocadas à nascença é a agulha perdida no palheiro que é a programação norte-americana.

Switched At Birth corria o risco de ser um fracasso. Deu um tiro no pé anunciando-se quase como um juvenil e oco melodrama de mau gosto, mas a verdade é que soube pegar na história central aparentemente frágil e acrescentar-lhe uma nova componente: a exploração da surdez na vida e na televisão.


No mundo gasto da televisão de massas, a criadora Lizzy Weiss voltou-se para o nicho da comunidade surda e a verdade é que soube agarrá-lo, graças à qualidade da escrita da sua equipa de guionistas. Mas não foram só os jovens surdos que se interessaram pela série. Uma vez que os problemas desses teenagers acabam por ser universais (e a série também tem imensos actores não surdos), a história acaba por tocar em qualquer adolescente que sintonize a ABC Family:

Bay descobre acidentalmente que o seu tipo de sangue não é compatível com o dos seus pais. A família pede esclarecimentos ao hospital e é-lhes dito que, há dezasseis anos atrás, as enfermeiras cometeram um erro e trocaram dois bebés pertencentes a famílias distintas.
O mundo dos Kennish desaba. E acaba por ir mais fundo quando John e Katherine descobrem que a sua filha biológica, Daphne, é surda e que não sabem como comunicar com ela de forma apropriada. Daphne e a sua mãe, Regina, são convidadas a ficar num anexo da casa dos pais de Bay, para que as duas famílias se aproximem, mas a verdade é que vão acabar por se separar ainda mais.


De facto, a originalidade das situações dramáticas, proporcionada graças ao elemento surdez, entre Bay, John e Katherine e Daphne torna-se prazerosa para o telespectador, uma vez que está perante uma lufada de ar fresco, algo visceralmente novo.
Contudo, convém sublinhar que a surdez é apenas um adorno, um acrescento à trama, e não o "prato principal". A componente crucial desta série é a exploração do conceito família, da adaptação de cada uma das personagens à bizarra situação em que estão, à tensão constante entre Daphne e Bay e ao mistério em torno da troca das bebés; não à permanente exaltação dos surdos e ao escarafunchar, até ao tutano, dos seus problemas de comunicação e integração. Malogradamente, é algo que os escritores esquecem amiúde.


Também o enfoque nos inúmeros amores e desamores das jovens, bem como a realização e a direcção de fotografia da série são comerciais e sem graça, bem ao estilo das séries tipicamente juvenis, como Pretty Little Liars. Contudo, a escrita, as interpretações e a entrega a um projecto que não só entretém como faz serviço público fazem esquecer as falhas. E isso, serviço público, é coisa rara nos EUA.


É imperativo aplaudir, ainda, no que toca às ideias originais e à escrita, a feitura de um episódio totalmente em Língua Gestual, com excepção da primeira e última cenas. Lamento unicamente a colocação de som ambiente e de temas musicais nesse capítulo. Ainda assim, foi um projecto pioneiro, um risco, que, por sinal, deu frutos, ou, melhor dizendo, não os perdeu, já que as audiências se mantiveram firmes.
Afinal de contas, as pessoas, os jovens, querem mesmo ver programas diferentes. Sair da zona de conforto. Transformar o tal palheiro em agulhas bem pontiagudas, para que se rasgue a boçalidade e a rotina em televisão.

Switched At Birth está a terminar a segunda temporada e foi renovada para uma terceira. Em Portugal, pode ser vista no AXN White.

Avaliação: *


*
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