Beijinho à prima (Crítica a O Beijo do Escorpião)

23:11

A realização, a escrita e os desempenhos dos actores fazem de O Beijo do Escorpião a melhor telenovela portuguesa desde Laços de Sangue.


Desde há muito que defendo que a telenovela, para cativar o público dos tempos de hoje, tem de se aproximar da série, sem nunca, no entanto, perder a sua essência. E O Beijo do Escorpião é uma das produções em que medra inelutavelmente essa aproximação, sendo por isso líder de audiências.


Contudo, é certo dizer-se que a qualidade desta telenovela só ficou mais patente com o desenrolar da trama e com as mexidas que, em boa hora, José Eduardo Moniz fez no argumento. 
Ainda assim, desde o primeiro episódio que senti que a telenovela da TVI tinha potencial para ser uma das histórias mais apaixonantes dos últimos tempos.


É que fiquei encantado pelo acting de Sara Matos - que interpreta a vilã Alice - absolutamente estonteante e cativador. E o facto de toda a telenovela girar à volta da sua personagem obrigou-me a seguir os restantes capítulos:

Alice, uma jovem de classe média-baixa, descobre que a sua mãe, com quem vive, é milionária. De modo a ficar com a sua fortuna, arquitecta um plano que, inesperadamente, acaba com a morte dela. Todavia, o advogado diz-lhe que quem irá usufruir da herança é a sua irmã, Rita [Dalila Carmo] - que não sabia que existia. Então, prepara um plano de vingança que consiste em entrar na vida de Rita, destruindo-a, e roubar-lhe tudo.


Evidentemente, o núcleo principal é assaz sumarento. Mas também se sabe que uma telenovela é feita de vários núcleos, sendo que eles também carregam a sua quota parte de responsabilidade para o sucesso/ fracasso de uma produção. E a verdade é que as histórias dos personagens secundários desta telenovela são um verdadeiro regalo para a vista, devido à originalidade dos temas sociais que elas abordam, aos desempenhos dos actores e à forma como se ligam com os personagens principais. Sim, os personagens secundários devem existir em prole dos protagonistas, caso contrário não passam de rissóis sem camarão.


Nesta linha, a família Albuquerque é o segundo núcleo mais importante do enredo, por se interligar inteligentemente com as vidas das personagens principais. Convém salientar as performances de Nicolau Breyner e Lídia Franco, mas sobretudo de Renato Godinho - talvez o melhor actor desta produção.


Porém a história de amor entre Paulo [Pedro Carvalho] e Miguel [Duarte Gomes] é talvez a que mais fãs terá. É que o modo como as suas emoções são exploradas, quer pelos argumentistas quer pelos próprios actores, tornou-os, apesar de ainda muito se se focar na sexualidade dos homossexuais - como se não tivessem vida para além disso - nos personagens mais humanizados da história. Convém, a propósito, realçar, em jeito de celebração, as cenas de amor entre os dois, que não conhecem grandes freios por parte da realização e edição. Esta é a primeira vez que uma telenovela portuguesa mostra, sem medo, duas pessoas do mesmo sexo a beijarem-se mais do que uma vez e em cenas íntimas.


Por fim, importa mencionar, uma vez mais, a qualidade da realização - dinâmica e adepta dos grandes planos - que funcionam na perfeição, ao exaltarem as emoções que os personagens transmitem - e da escrita - com diálogos fluídos, mas não ocos, sem tempos mortos e com episódios extremamente bem estruturados.


Há semanas, li uma entrevista de Tozé Martinho ao site A Televisão, na qual defendia, por outras palavras, que as telenovelas de hoje não têm a mesma qualidade que as de antigamente, porque não se preocupam em mostrar demoradamente emoções e são escritas como se fossem "policiais".
Ora, as histórias de antigamente, de facto, tinham um ritmo bastante mais lento, em que não só se mostravam emoções, como se se escarafunchava nelas.


Não obstante, os tempos mudaram, evoluíram, e o público está mais exigente. Quer mais qualidade. Quer outro ritmo. E é por isso que as telenovelas mais despachadas, mais vivas, que mais se assemelham a séries, estão a ter mais destaque. E é também por isso que as histórias desse autor estão a ser um fracasso: Porque estão ultrapassadas.
Ainda há muito que evoluir no que toca à ficção nacional, mas rebaixar o (ainda lento) desenvolvimento que está a ter é simplesmente estulto.
Beijinho à prima.

O Beijo do Escorpião é transmitido diariamente, na TVI, por volta das 22:42h, e já se encontra na fase final.

Avaliação: *


*
☆☆☆☆☆- Péssimo
★☆☆☆☆- Mau
★★☆☆☆- Razoável
★★★☆☆- Bom
★★★★☆- Muito Bom
★★★★★- Excelente

0 comentários