A Internacionalização Glamorosa Ou O Problema da Telenovela Moderna

23:55

O guião de uma história salva muitos erros de produção, mas da produção per se não se consegue fazer uma boa história.

É esta ideia que teima em não caber nas mentes dos detentores do monopólio da ficção nacional. Falo, em particular, das telenovelas.


Contudo, não me interpretem mal. Não faço parte do grupinho pseudo-intelectual que teima em cuspir nesse tipo de produto televisivo sem nunca - muitas das vezes - sequer o visionar.
A ficção folhetinesca portuguesa sempre teve uma enorme margem de melhoria, mas, agora que entramos, pela mão da não-tanto-assim vanguardista TVI, numa nova fase para a ficção, há um erro colossal que me faz espécie.


Terei sido o único a ficar com uma sensação de jet lag de tantas as vezes que saltitámos entre continentes nos primeiros episódios de A Impostora? Grande parte do episódio piloto foi uma colagem de sítios bonitos de Moçambique, Portugal e Santiago do Chile. Mesmo nas cenas de exteriores com os personagens, dá-se mais importância ao sítio onde se passa a acção do que à própria acção.
É este o problema.
Que faz com que tenhamos histórias fracas.


Como é suposto ligar-me ao sofrimento de uma mãe lisboeta com um filho fruto de uma violação se, no momento após o nascimento, a vemos, depois de uma longa passagem de tempo com imagens de sítios paradisíacos, a comentar em Moçambique que a criança tem um tumor e que não tem dinheiro para a salvar?
Por que não aproveitar esses espaços ocos para nos serem mostradas as emoções da personagem? O que ela sentiu ao ter o filho? Como construiu a relação?
É este o problema.


O problema de se escrever histórias passadas numa mancheia de sítios só para depois poderem ser vendidas a esses mesmos sítios. Se faz sentido a acção ser lá passada, a conversa já é outra.
Compreendo a ânsia de se conquistar mercados internacionais. Mas ainda ninguém parou para perceber que pouco importa se vemos na telenovela das 22h a rua por onde passamos todos os dias. O que importa é se as personagens, situações e acontecimentos mostrados são credíveis, originais, e têm emoção.
É esta a solução.

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