BOM CONCEITO, MÁ CONCRETIZAÇÃO (CRÍTICA A "AMERICAN HORROR STORY: ROANOKE")

22:48

American Horror Story: Roanoke nada mais é, apesar do investimento criativo no conceito, do que os últimos cartuchos de uma colecção de mini-séries de horror gasta e embaraçosa.

Mais uma volta, mais uma viagem.
Ryan Murphy logra, novamente, introduzir um conceito diferenciador em mais uma temporada da sua série American Horror Story. Mas esquece-se, já sem surpresa, de trabalhar no seu desenvolvimento e solução.


Desta vez, a conjugação do subgénero Found Footage e da Reality TV é o prato principal da refeição de despautérios que nos vai sendo apresentada ao longo de toda a sexta temporada da série.
A ideia, no entanto, é interessante, possibilitando a experimentação de outros tipos de jogos de medo, mais crus e realistas.


Com efeito, também a ideia da estrutura geral da temporada é empolgante: Nos primeiros seis episódios, vemos a reconstituição de uma história de terror "real" por que uma família passou, numa casa assombrada, pontuada por momentos em que cada um dos elementos dá o seu testemunho; na última metade da história, temos os actores da reconstituição e a família verdadeira fechados pela produção do programa na tal casa.


A originalidade termina aqui.
De resto, claramente inspirada no sucesso Blair Witch Project, a história falha no suspense que tenta a todo o momento criar. É que desde o início que nos é dito que todos aqueles indivíduos morrem nas filmagens, sendo que o que estamos a ver não é mais do que o caminho para a morte de cada um deles.


Mas esse caminho é sinuoso. Erros básicos, como o facto de os telemóveis de cada um deles nunca terem falta de bateria, ou a ânsia oca de estarem sempre a filmar tudo o que vêm, mitigando o ímpeto de fugir aquando de um ataque fantasmagórico e ritualista, ou mesmo a existência de câmaras do programa em sítios despovoados, já fora da tal casa vítima dos assombramentos, é mais do que suficiente para cenas de mortes violentas e inusitadas serem descredibilizadas. Mortes que, diga-se de passagem, nada mais são do que uma forma de mostrar sangue por dá cá aquela palha.


Ademais, a incessante correria e gritaria histérica da actriz Sarah Paulson ao longo de grande parte das cenas faz com que o verdadeiro clímax e consequente gancho final dos episódios seja fraco. Porque se misturam com os acontecimentos anteriores, de igual carga dramática. Ficando a ideia de que se teve de cortar a história a meio porque o tempo de antena se esgotou simplesmente.


Tempo esse que, parece-me, é mais curto do que o habitual. Agora, os episódios não chegam a ter, sequer, quarenta minutos. Fico com a ideia de que os escritores querem, aos poucos, tornar esta série numa sitcom de meia horinha.
Por fim, pela primeira vez em todo este leque de mini-séries de terror, não fiquei agradado pelo acting dos actores.


O facto de, amiudadas vezes, terem de encarar a câmara de frente e verter emoções mais cruas, faz com que as fragilidades do elenco venha ao de cima. Apenas Frances Conroy, enquanto actriz convidada no episódio cinco, convenceu, no papel de Mama Polk, revelando a sua extraordinária capacidade de metamorfose.


Não conheço, actualmente, mais nenhuma outra série americana assumidamente de terror/horror. American Horror Story tem, como tal, todos os anos, oportunidades fantásticas para explorar esse território. Mas, em vez disso, dá primazia aos clichés, ao melodrama barato e à falta de empenho na escrita.


Em jeito de brincadeira, Billy Eichner, na série Difficult People, escarnicou o programa, dizendo: "O Ryan Murphy nunca está no Writer's Room do American Horror Story. Nem sequer sei se existe um". O problema é que cada vez mais me parece verdade.
Não basta termos uma boa ideia. É preciso que a trabalhemos.

American Horror Story: Roanoke é transmitido às Quartas-feiras, no canal FX.

Classificação: ☆*



*
☆☆☆☆☆- Péssimo
★☆☆☆☆- Mau
★★☆☆☆- Razoável
★★★☆☆- Bom
★★★★☆- Muito Bom
★ - Excelente

0 comentários