INSPECTOR QUEM? (CRÍTICA A "INSPECTOR MAX")

23:29

A revelação de que a estreia da terceira temporada de Inspector Max iria ocorrer na noite da Consoada foi uma espécie de presente de Natal inesperado. E barato a todos os níveis, ou não estivéssemos em época de contenção de custos.

Depois de vários anos em reposição aos fins-de-semana, sempre líder de audiências, fazia todo o sentido que uma terceira temporada de Inspector Max fosse produzida. Até porque a série terminou sem como nem porquê em 2005, quando nunca havia deixado de ser um sucesso estrondoso em termos audiométricos.


Todavia, este regresso revelou-se um embaraço indesculpável no que concerne à qualidade, o que muito me preocupa em relação às séries feitas neste país.


Escrito por Nuno Duarte, quase tudo está errado no episódio Tudo Em Família. A começar pelo teaser, em que basicamente nos apresentam pachorrentamente a nova família de Jorge (Fernardo Luís) e Max: Agora, Jorge tem uma mulher, que a única coisa que fez foi atirar que é uma advogada, sem nada que o justificasse, e dois enteados que se chateiam por dá cá aquela palha, com diálogos e acting pobres no que à credibilidade diz respeito.
O teaser deveria ter englobado a bomba a rebentar, num atentado à vida de Jorge. É assim que se capta a atenção do telespectador.


De facto, sem surpresa, este episódio de estreia só poderia abordar um caso ligado directamente ao protagonista e ao seu passado. Nesse aspecto, as escolhas do guionista fizeram sentido. Notei, de igual forma, empenho na contextualização dos acontecimentos e das relações amorosas decorridas entre a segunda e a terceira temporada da série e em mantê-la fiel à sua essência, no sentido em que, para todos os efeitos, este é um produto familiar, com uma story line passada na polícia e outra na família do protagonista, acabando por serem cruzadas no final.


Mas o que não faz sentido é que Jorge não tome os cuidados necessários depois do atentado. Tem uma atitude estranhamente blasé, não se lembrando sequer de proteger a família depois de o tentarem envenenar no próprio gabinete da PJ. Seria de esperar que estes anos todos de profissão o tivessem ensinado algo -  a ele e aos guionistas.


Também a investigação do caso se revelou um tanto ao quanto limitada. Quase tudo se passa em estúdio, no gabinete da unidade chefiada por Sérgio (Rui Santos) e numa loja de artigos de festa, funcionando à base de diálogos ocos e das relações telenovelescas entre colegas.


O que antigamente envolvia grandes aparatos, personagens misteriosas, reviravoltas pertinentes e odes aos grandes autores policiais (a maioria dos episódios da primeira e da segunda temporada é a versão portuguesa de histórias de autores como Agatha Christie) agora não passa do arrasto de uma série lucrativa que sempre precisou de grande investimento financeiro e criativo para ser considerada minimamente boa.


Mas o pior da série não é a escrita preguiçosa, a realização de sitcom de quinta categoria, nem as interpretações de bradar aos céus. É a edição, especialmente da music score.
Acho um erro para lá de básico que, numa cena de clímax, em que o verdadeiro criminoso se revela e tenta assassinar a família de Jorge, conspurquem a tensão com uma musiquinha para crianças, com um salpico de mistério, como se fosse aparecer o Noddy à porta com um problema de matemática que não consegue resolver.


Numa altura considerada a era de ouro da televisão, é imperativo que em Portugal se utilize esse meio para se fazer arte, para contar histórias apaixonantes, cuidadas, pensadas e, sobretudo, que façam pensar. Porque não é com "inspectores maxes" que se combate o populismo, a desinformação e a ignorância crescentes a nível mundial e que assombram cada vez mais a democracia.


Espero que os próximos episódios da série de Virgílio Castelo se apoiem em contos e romances policiais de qualidade, como antigamente acontecia. É que, sabendo que os talentos das nossas gentes não dão para muito, pelo menos ficaria a garantia de que as bases para as histórias dos episódios valem a pena.

Inspector Max regressa em 2017, aos sábados, na TVI.

Classificação: ☆*



*
☆☆☆☆☆- Péssimo
★☆☆☆☆- Mau
★★☆☆☆- Razoável
★★★☆☆- Bom
★★★★☆- Muito Bom
★ - Excelente

0 comentários