OS EPISÓDIOS MAIS BEM ESCRITOS DE 2016

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Este foi, talvez, o ano em que melhor se escreveu para televisão. Desta feita, ao passo que é imperativo laurear-se os episódios mais bem escritos da ficção internacional, a elaboração de uma lista com capítulos de doze séries apenas é uma tarefa inglória.
Convém salientar que, obviamente, não consumi toda a ficção que se fez este ano, pelo que os vossos episódios e séries favoritas poderão não constar desta lista. Relembro também que o que está em causa é a escrita dos episódios e não as séries num todo.

Sem mais delongas, apresento a lista dos episódios mais bem escritos das séries internacionais:

12 - 11.22.63 (episódios 1x05, The Truth, e 1x08, The Day in Question, escritos por Bridget Carpenter)


Exímio na justificação do engrandecer das situações de tensão, grande parte do episódio The Truth passa-se entre Jake, Johnny e Sadie, no qual Johnny, suspeitando que a mulher tem um caso com Jake, faz os dois reféns, numa enorme sequência de cortar a respiração que, apesar de parecer um desvio, é estruturante e fulcral no que toca ao desenrolar da trama principal da série.
Em The Day in Question, encerra-se o arco do assassinato de JFK a meio, dando-se espaço para, na restante metade do series finale, existir um maior foco na mensagem principal da série, bem mais ternurentamente complexa do que a simples prevenção de um assassinato.

11 - This Is Us (1x01, Pilot, escrito por Dan Fogelman)


O episódio estreante do grande novo hit do ano funciona por si só. Temos histórias de três núcleos distintos, cujos problemas principais, típicos de melodrama, têm uma roupagem única e exploração surpreendentemente original, funcionando como caracterizadores dos próprios personagens mas também como as portas para as relações entre todos se cruzarem fluidamente. O episódio desagua com a revelação do ponto de convergência de todas estas vidas: Todos pertencem à mesma família.

10 - The Night Of (1x01, The Beach, escrito por Richard Price)


O episódio que deu todo o valor a uma mini-série interessante mas pouco engenhosa parece desenquadrado de toda a história, precisamente por saber concentrar a acção numa única situação, evoluindo sempre de forma consistente e sem rede. Nunca sabemos o que está prestes a acontecer. E o que acontece de facto é de nos tirar o fôlego.

9 - House of Cards (4x04, Chapter 43, escrito por John Mankiewicz, e 4x10, Chapter 49, escrito por Melissa James Gibson e Kenneth Lin)


Os episódios Chapter 43 e Chapter 49 marcam claramente o final do primeiro e segundo actos da temporada, denotando, mais uma vez, a grande capacidade de estruturação da história através de reviravoltas que nos fazem tremer a espinha.
Inteligente na construção da relação entre Frank e o seu guarda-costas, a implacabilidade de Chapter 43 rapidamente desfaz a história, matando Meechum e virando o jogo contra o protagonista, deixando-o às portas da morte.
Em Chapter 49 continua a explorar-se magistralmente a relação agridoce dos políticos com o poder, com Claire a matar a própria mãe para, no momento seguinte, receber uma ovação ao aceitar correr para a vice-presidência.

8 - Better Call Saul - (2x08, Fifi, escrito por Thomas Schnauz, e 2x09, Nailed, escrito por Peter Gould)


Os episódios oito e nove quase que pedem para ser vistos seguidamente. É que os dois lidam com as malabarices comicamente complexas de Jimmy na sua luta para conseguir os clientes que o irmão lhe usurpou e para lograr fazer um vídeo auto-promocional, de forma a ser levado a sério enquanto advogado. Os seus dois planos são absolutamente deliciosos e nenhum detalhe é deixado de lado no que toca à problemática dicotómica moralidade/sucesso. Temos o nonsense dos planos mirabolantes que existiam em Breaking Bad, mas num ambiente bem mais concentrado, abrindo-se as portas para a melhor exploração de todos os personagens e das consequências das acções.

7 - Game of Thrones (6x09, Battle of the Bastards e 6x10, The Winds of Winter, escritos por David Benioff e D. B. Weiss)


A batalha entre os bastardos é, sem dúvida, a melhor cena de guerra que vi na televisão. Ler o argumento dessa sequência deve ser delicioso. Sequência, essa, que ocupou a última metade do episódio, com a primeira a preparar terreno e a engrandecer as tensões para a apoteose que depois ocorreu.
Também o último episódio se mostrou apoteótico com o plano, magistralmente arquitectado por Cersei, para acabar com o clima de guerra iminente. Culminando igualmente em cenas de grande impacto visual, seguidas de descompressão emocionalmente lancinante, sendo esse o grande trunfo de Game of Thrones, que o sabe jogar muito bem.

6 - Orange Is The New Black (4x07, It Sounded Nicer in My Head, 4x11, People Persons, escritos por Nick Jones, e 4x12, The Animals, escrito por Lauren Morelli)


O justo seria laurear todos os episódios desta que foi a melhor temporada de Orange Is The New Black. É incrível como esta série vai já na quarta temporada e consegue escrever episódios mais negros, mais críticos, mais inventivos e mais criativos.
It Sounded Nicer in My Head lida com a redenção de Piper depois de todo o mal que fez, levando-a a uma situação limite em que fica marcada para a vida e que faz com que os telespectadores a perdoem e sintam empatia para com ela novamente.
The Animals é um dos episódios mais bem escritos de toda a série, ao brincar com o modo como as punições podem ser usadas pelas vítimas para vincarem ainda mais o que são e o que fazem. O final é tragicamente inesperado, bem ao meu gosto.

5 - Stranger Things (1x01, Chapter One: The Vanishing of Will Byers, 1x08, Chapter Eight: The Upside Down, escritos por The Duffer Brothers, e 1x03, Chapter Three: Holly Jolly, escrito por Jessica Mecklenburg)


Stranger Things é, incontestavelmente, a série do ano, por ser exímia na constância do ritmo e da exploração do mistério central em todos os episódios, levando-nos numa jornada nunca antes vista ao transportar-nos para a nossa saudosa juventude de aventuras.
O objectivo dos três protagonistas, simples crianças, é fixo durante toda a temporada e eles não param enquanto não conseguem o que querem. Os antagonistas e aliados são apresentados respeitando ao milímetro a estrutura clássica de escrita de guião e a interacção entre todos é deliciosa.
Lembro-me de Joyce a comunicar com o filho preso na realidade alternativa, no terceiro episódio, através de luzes de Natal e de um código elaborado pela própria, que é de um engenho inigualável.

4 - The Night Manager (1x02, Episode 2 e 1x05, Episode 5, escritos por David Farr)


O segundo episódio desta fantástica mini-série é escrito como se de um filme se tratasse. É uma verdadeira ode ao James Bond, mas melhor. O protagonista entra numa jornada de luto pela morte da namorada, cruzando-se com o homem que a matou e desaguando no plano malvado de vingança, encetado no resto da temporada.
Este episódio é uma verdadeira lição de escrita, a que todos devem assistir.
Em Episode 5 é o clima de desconfiança que é aflorado em modo crescente, culminando na descoberta da identidade do protagonista por um dos capangas do vilão e na solução em contra-relógio desse problema.

3 - Transparent (3x01, Elizah, escrito por Ethan Kuperberg, e 3x06, The Open Road, escrito por Bridget Bedard)


Transparent é uma raridade e, possivelmente, a minha série favorita de 2016. Elizah lida com Maura a procurar uma adolescente que lhe contou que se quer suicidar, levando-a a cómicos de situação num centro comercial escritos de forma muito pouco convencional. É que o lado narcisístico dela está sempre presente de modo original e desconcertante.
É incrível como todos os núcleos se ligam nos problemas familiares e sexuais e como a verdadeira identidade de cada personagem se revela, nomeadamente em The Open Road. Estes são os melhores episódios de verdadeira e apaixonante exploração de personagens.

2 - American Crime Story: The People v. O. J. Simpson (1x01, From the Ashes of Tragedy, 1x02, The Run of His Life, escritos por Scott Alexander e Larry Karaszewski, e 1x08, A Jury in Jail, escrito por Joe Robert Cole)


American Crimes Story surpreendeu-me. Há muito que uma série não me convencia o suficiente para a ver toda num trago. Em cada episódio, um interveniente deste caso de egos e de populismos é explorado até ao tutano, denotando-se a enorme pesquisa efectuada durante a escrita. Contudo, a história principal nunca se perde. Pelo contrário. É habilmente entrusada com as vidas pessoais de cada personagem.
Em A Jury in Jail, essa estratégia é muito visível, ao abordar-se a vida complicada do júri, obrigado a ficar fechado num hotel, sem acesso a nada, enquanto tenta tomar uma decisão e é tratado como um boneco descartável pelo tribunal, ao passo que, ironicamente, na prisão, O. J. joga às cartas com os seus advogados, livre e pândego.
A pontuação das cenas com momentos do impacto social nas vidas voyeuristas dos telecpectadores do julgamento de O.J. Simpson é igualmente deliciante.

1 - Westworld (1x01, The Original, escrito por Jonathan Nolan, Lisa Joy e Michael Crichton, 1x07, Trompe L'Oeil ,escrito por Halley Gross e Jonathan Nolan, e 1x09, The Well-Tempered Clavier, escrito por Dan Dietz e Katherine Lingenfelter)


Complexos e intrigantes. São assim todos os episódios de Westworld. Episódios em que tudo o que parece é muito mais. E em que o que é dito, feito e mostrado em todos os episódios tem ligação com revelações inesperadamente chocantes, em capítulos subsequentes. Cada vírgula é pensada com parcimónia, de modo a não trair esta espécie de círculo de acontecimentos que dependem e se escondem uns aos outros.
O melhor de Westworld é precisamente a forma como as revelações de personagens e segredos importantes são feitas, através da criação de todo um clima de traição das expectativas e exploração da repetição imagética:
No primeiro episódio, por exemplo, ficamos primeiramente a saber que o dia naquela terra do Oeste está a ser repetido; depois percebemos que esta não é a história de amor tradicional entre uma rapariga simples e um homem do exército que volta para a visitar e, finalmente, revivendo sempre o mesmo dia, ficamos a saber que a terra onde eles estão é um parque de diversões e que eles não são humanos. As expectativas são propositadamente traídas, mas as pistas são-nos sempre dadas.
As melhores revelações são as dos episódios um, sete e nove.

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