HISTÓRIAS NUM SOPRO

22:39

É possível escrever-se contos tanto em 15 páginas como só numa palavra. Mas a dificuldade de construção de uma história com introdução, desenvolvimento e conclusão engrandece quando o espaço para o fazer encurta.
Desta feita, lançado o desafio a mim próprio, deixo aqui uma antologia de contos da minha autoria, com menos de 800 caracteres cada (incluindo espaços), escritos no Natal passado, em etiquetas de presentes.


Chapéu de Chuva
Estou negro. Completamente. Nem a chuva que cai em cima de mim me limpa.
Só penso em voltar atrás e recuperar todas as cores que tinha e que ficaram perdidas nos tropeços de outrora.
Gasto a última réstia de cor a construir uma máquina do tempo.
Que me leva atrás. Estou finalmente a voltar atrás.
Mas onde estou? Está tudo azul. Estilhaços de vidro no chão reflectem a minha cara de criança chorosa a levar porrada do meu pai.
Não consigo absorver aquela cor. É demasiado dolorosa. E volto para o presente de mãos a abanar.
Estou sem força. Deixo-me ficar encolhido, à chuva.
Mas alguém surge. Tapa a chuva com um chapéu. Olho para cima e vejo lá todas as cores da vida.


O Filho da Mãe
O menino Carlinhos nunca está quieto, especialmente aos olhos de Josefina, a mãe. Desta vez, debateu-se para ir para o colo dela enquanto a amiga Bá a visitava. Que maçada.
O menino Carlinhos é uma peste. Josefina apanhou-o a lambuzar-se no bolo de chocolate para os convidados da festa. Correu atrás dele para o apanhar, mas acabou por sujar a sua rabona. Uma verdadeira maçada.
O menino Carlinhos chegou a casa só de manhã, depois de ter estado com os amigos do povo de que tanto gosta. Nem a rosa que deu à mãe o desculpa.
Mas a rosa virou roseira. Josefina passa os dias a cuidar dela. É que o menino Carlinhos já saiu de casa e foi morar para Londres.
Uma maçada.


O Fim de Semana
Segunda passou por Semana, lugar dos sentimentos. E Fulgor cumpriu o seu papel: Iluminar tudo desde o céu.
A Noite chega. Fulgor vê que ela traz consigo o Medo, a Perdição e a Maldade. Volta à terra, mas já não tem tempo de ver Amor, grávida dele, com Esperança no ventre.
Fulgor só logra chegar a casa de Ânsia e trancar-se lá. Ele sabe que é um alvo a abater e se for eliminado deixará de haver luz mas os sentimentos negativos estão agora a ir até Amor para Esperança não nascer e assim Paz não os visitará mas Fulgor sempre os venceu e agora também tem de o fazer senão Amor não o vai
***
Semana põe a mão no peito. A arfar. Domingos, o pai, senta-se a seu lado e encosta-a a si. O seu abraço é como um raio de Sol. Ela fecha os olhos. E acalma-se.


A Máquina
A máquina está prestes a rebentar. A capacidade de armazenamento da bomba atingiu o auge.
Ademais, do tubo irrigatório ao acumulador de energia, está gasta, apodrecida e débil.
É que a máquina só servia para alimentar o seu criador. Entretanto, farto de toda aquela energia, deixou-a. E ela continua a acumular tudo. Sem ter quem alimentar, porque não conhece mais ninguém.
Mas agora chegou ao limite: Ou rebenta e pára, ou deixa verter o que sempre pertenceu ao criador.
O que não sabe é que, independentemente do resultado, o que tem dentro de si é capaz de a restaurar e banhar num mar de paz  e possibilidades.

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