SÓ ME SAEM DUQUES! (OU O TALENTO QUE FICA NA GAVETA)

23:23

O mercado do guionismo em Portugal é praticamente inexistente. É tão fechado que os argumentistas da próxima novela das dez são os que escreveram os episódios da anterior série da RTP e serão os que vão escrever o próximo filme do António-Pedro Vasconcelos.
Quem não tem no currículo a bendita experiência de ter colaborado com autores ou trabalhado com o José Eduardo Moniz sente-se uma espécie de jogador de Poker já sem dinheiro e sempre com cartas de baixo valor: Entalado.


Terminei recentemente de escrever mais uma proposta de telenovela. Entre trabalho, vida pessoal e tempo para dormir, demorei cerca de seis meses a maturar e a desenvolver toda a bíblia do projecto.
Não sei se sou o único a sentir-me deste jeito, mas a verdade é que o término de uma proposta de projecto é causticamente aliviadouro: Com menos uma tarefa diária e tendo concluído tudo aquilo a que me propus, a sensação de missão cumprida é inegável. Contudo, o vazio de não conseguir fazer com que quem de direito olhe para esta prova do que valho é um tanto ao quanto destruidor. É como só ter duques em mãos no jogo de Poker.
Porque só há três canais, não há Netflix a produzir em Portugal, o cabo não têm produções originais e não tenho friends in high places.
Todavia, comparando a minha mais recente proposta de telenovela com a que escrevi anteriormente, noto uma evolução no que toca à economia narrativa, à noção de ritmo e à estrutura.
Para essa evolução contribuiu o visionamento de mais séries e filmes de excelência. como Westworld ou Arrival, a frequentação de cursos de argumento, como o que fiz com Rui Vilhena, ou mesmo a leitura de livros técnicos, como Wired for Story: The Writer's Guide to Using Brain Science to Hook Readers from the Very First Sentence.


Não conheço os números de aspirantes a argumentistas que existem em Portugal, nem o número de propostas de produtos de ficção que a SIC deve receber por dia. Mas sei que pelo mundo fora há milhares e milhares de pessoas a tentar a sua sorte. Acredito que muitos já tenham escrito verdadeiras bíblias, de tantos os projectos, não seleccionados pelas produtoras, que já escreveram.
E essas pessoas continuam a tentar a sua sorte. Continuam no jogo. Sempre a melhorar.
Nada do que fazemos é em vão. O que escrevi não vai ficar só na gaveta da secretária. Vai ficar nas gavetas do conhecimento.
E há medida que vou persistindo neste jogo, mais o fico a conhecer. E a perceber que no Poker o que conta não são as cartas baixas. Porque, um dia, posso ter a sorte de fazer um Four of a Kind.

"Tentaste sempre. Sempre falhaste. Não te apoquentes. Tenta de novo. Falha de novo. Falha melhor." - Samuel Beckett

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