OS EPISÓDIOS MAIS BEM ESCRITOS DE 2017

18:46

Ao consultar uma das muitas listas de melhores séries de 2017, li que o autor se queixava da dificuldade crescente em fazer este tipo de matérias, uma vez que a quantidade e a qualidade da ficção é cada vez maior.
Ora, se tal é difícil para um crítico profissional, imaginem como eu, cuja ocupação profissional não é esta e o tempo livre é escasso, me sentirei.

Ainda assim, do leque de séries vistas por mim, estes foram os episódios mais bem escritos que encontrei:

11 - Game Of Thrones (episódios 7x04, The Spoils Of War, e 7x06, Beyond The Wall, escritos por David Benioff e D. B. Weiss);


Orfã do livro que guiou a série de televisão, a sétima temporada de Game of Thrones decidiu assumir por completo o abandono da estrutura de telenovela cerebral, que até então nos habituou, a favor da estrutura clássica de escrita de série. E a verdade é que, particularmente em Beyond the Wall, toda a linguagem e elementos antes e durante a batalha com os White Walkers estão pensados ao pormenor, com um episódio dramático lotado de acção.
O primeiro acto, sobretudo, tem informações vitais para o telespectador, nomeadamente com o surgimento de um urso walker, justificando-se, assim, o twist do final do episódio, com a captura do dragão por parte do exército malvado. Mas também o pormenor da cena sobre a legitimidade da pertença da espada de Ned Stark a Jon Snow é essencial para a rima com o clímax do episódio, altura em que Snow se salva graças à própria espada.

10 - Homeland (episódio 6x05, Casus Belli, escrito por Chip Johannessen);


A imprevisibilidade e a explosão de tensões a que Homeland tão bem nos habituou nas primeiras temporadas são recuperadas em Casus Belli, altura em que se abandona um pouco o jogo político, abraçando-se as emoções humanas à flor da pele. O rebentar de emoções resulta, especialmente porque o episódio se passa quase todo em casa de Carrie, onde Quinn faz refém a filha dela. Todas as tensões ficam a borbulhar em crescendo. E ninguém, muito menos o público, sabe como tudo vai terminar. Esta sensação de perigo constante, através de uma escrita arguta, é de saudar.

9 - Modern Family (episódio 8x18, Five Minutes, escrito por Elaine Ko);


Quando começamos a adormecer com Modern Family, há sempre um episódio que nos faz acordar e ter esperança na continuidade da série. Desta vez, a genial Elaine Ko quis iniciar e acabar a história de cada núcleo familiar numa única sequência de cinco minutos. Mais do que boa escrita de comédia, este é um grande exercício de escrita criativa, verdadeiramente empolgante, tanto para quem escreve como para quem assiste. Precisamos de mais episódios de ruptura como Five Minutes.

8 - This Is Us (episódio 2x08, Number One, escrito por K. J. Steinberg);


Com o oitavo episódio de This Is Us, a série refrescou-se, iniciando uma fornada de episódios focada exclusivamente num único personagem. Começou por fazê-lo ao pegar naquele que era, até então, o personagem menos interessante da história. Number One foi escrito como se fosse um verdadeiro filme melodramático de valor acrescentado. Acompanhamos Kevin numa viagem de autodescoberta e destruição, sempre em crescendo e sem nunca nos querermos libertar dele. Nenhuma série actual remexe tão brilhantemente nos elementos melodramáticos como This Is Us. E este episódio é prova disso. É impossível não nos emocionarmos durante a viagem física e emocional do personagem.

7 - Stranger Things (episódio 2x08, Chapter Eight: The Mind Flayer, escrito por The Duffer Brothers)


Chapter Eight: The Mind Flayer foi, sem dúvida, o melhor episódio da segunda temporada de Stranger Things e um dos melhores de toda a série. Com um teaser de cortar a respiração, o episódio foi capaz de manter a adrenalina sempre em alta do princípio ao fim. Fazer isto é praticamente inexistente em televisão. Mas todas as séries (especialmente as do género) deveriam ser assim, abolindo sempre os tempos mortos, nomeadamente no terceiro acto.

6 - Better Call Saul (episódio 3x05, Chicanery, escrito por Gordon Smith);


Com o quinto episódio da terceira temporada de Better Call Saul, mais uma vez se prova que a condensação da acção num espaço ou situação torna um episódio muito mais forte, caso o argumentista saiba trabalhá-lo com mestria.
Em Chicanery, a batalha no tribunal entre Jimmy e o seu irmão tinha de ser épica. Como tal, explorou-se engenhosamente um trunfo que o protagonista usou à socapa para derrotar o irmão. A forma como o episódio foi escrito, coexistindo perfeitamente com a realização (o pormenor da luz EXIT no início e no fim do episódio é exemplo disso) é de saudar.

5 - The Deuce (episódio 1x01, Pilot, escrito por George Pelecanos e David Simon, e 1x07, Au Reservoir, escrito por David Simon e Megan Abbott);


Numa altura em que as melhores séries são plot driven, The Deuce apresenta-se logo no Pilot como uma pedrada no charco, revelando-se character driven. É muito mais difícil tornar-se uma história interessante e saber-se para onde vai, quando o que conta nela são apenas as vidas das personagens. Mas The Deuce consegue fazê-lo satisfatoriamente, aproveitando o primeiro episódio para nos apresentar em catadupa os personagens e os seus problemas. Quando, finalmente, acaba de o fazer e é hora de avançar com a história propriamente dita, no final do episódio, isso não acontece, propositadamente: Na cena, Vincent, o protagonista, vê uma prostituta ser atacada pelo seu pimp. É altura de o homem agir e deixar de se subjogar, podendo virar a história e começar a sua evolução.
Contudo, inesperadamente, ele vira costas (a eles e ao plot), assumindo as suas características e aproveitando para as explorar nos episódios seguintes. É este o momento em que fica bem claro o tipo de história de The Deuce.
É de salientar a evolução e exploração, através da escrita fenomenal, da personagem Eileen, sendo talvez a que mais evolução tem e a que mais avança a história propriamente dita.

4 - Big Little Lies (episódios 1x01, Somebody's Dead, e 1x07, You Get What You Need, escritos por David E. Kelley);


Quando se dá uma roupagem diferente a um produto folhetinesco, o sucesso é garantido. Tal aconteceu com Twin Peaks (focando-se nas vidas familiares e amorosas das gentes de uma pequena vila, de uma forma sombria, inquietante e hieroglífica), Brothers & Sisters, Parenthood, ou This Is Us (explorando-se mais a fundo e mais cuidadosamente o impacto emocional que as relações familiares têm nos personagens). E Big Little Lies vai também por esse caminho: Temos histórias de três mulheres com os seus problemas. Mas elas estão emocional e (quase) telepaticamente ligadas, fazendo parte de um melodrama cru envolto num mistério ligado a um crime.
É esta ligação entre as personagens principais e a forma como se desenvolvem que fazem de Big Little Lies um achado. O mistério do crime é o que liga todos os episódios, mas ele próprio é-nos desvendado enviesadamente em todos. O olhar que Jane e Celeste trocam no primeiro episódio, assim que se conhecem, desvenda logo o mistério, como que nos dizendo, muito nas entrelinhas, que aquelas duas personagens sabem que estão intrinsecamente ligadas, porque as duas sofreram (embora ainda não o saibam) às mãos do mesmo homem. Homem que, inevitavelmente, foi quem morreu.
Algo assim, tão evidente, mas tão brilhantemente camuflado, só seria possível com uma escrita genial.

3 - The Leftovers (episódio 3x04, G'Day Melbourne, escrito por Damon Lindelof, e 3x05, It's a Matt, Matt, Matt, Matt World, escrito por Lila Byock e Damon Lindelof);


The Leftovers é uma das séries mais consistentes em termos de escrita, nunca perdendo a qualidade de temporada para temporada.
A estranheza dos derradeiros episódios da série faz jus à essência da história, brincando com isso e apostando em pequenos tributos a si mesma.
A sua aparente loucura é verosímil, sendo tudo eventualmente explicado à la Lost, ainda que com uma muito melhor estrutura e cuidado nas questões semióticas.
O quarto episódio é exemplo disso, sendo a altura em que Kevin e Nora vão para a Austrália, explicando-se finalmente a estranha importância que esse país tem para a série, bem como o derradeiro confronto entre o casal, depois de vários episódios em que não os entendemos por, propostiadamente, não terem diálogos sinceros.
É de alguma forma triste que o público não tenha percebido a genialidade desta série, que mostra os seus personagens a, de facto, evoluírem de forma sempre surpreendente mas com sentido, e com todos os acontecimentos finais a terem ligação com as pontas soltas das temporadas anteriores.
Convém realçar, ainda, o episódio 3x05, que, por se passar todo num navio, aprisiona a acção e as emoções numa espécie de panela de pressão, funcionando como um verdadeiro filme dramático.

2 - The Handmaid's Tale (episódios 1x01, Offred, 1x03, Late, escritos por Bruce Miller, e 1x04, Nolite Te Bastardes Carborundorum, escrito por Leila Gerstein);


Ainda a meio da primeira temporada, já tenho a noção de que esta é a grande série do ano 2017. Adaptada do clássico romance com o mesmo nome, The Handmaid's Tale mostra-nos uma realidade distópica cuja originalidade na sua exploração, por parte do argumento, é perturbadoramente interessante. A escrita da inclusão forçada de Offred e de todos as peculiaridades macabras da sociedade ditatorial vêm acompanhadas de um equilíbro extremo entre os monólogos interiores da protagonista, a máscara que tem de pôr para os outros, e as relações por ela criadas.
É de realçar a brilhante escrita do sofrimento e dos maus tratos por que ela passa, ao mesmo tempo que sabemos o quão forte ela é, o que nos faz ficar irremediavelmente apaixonados por ela, querendo saber o que vai acontecer a seguir. Se querem saber o que é um herói bem desenvolvido (e como se deve escrever para televisão e webséries), vejam esta história.

1 - Black Mirror (episódios 4x02, Arkangel, e 4x03, Crocodile, escritos por Charlie Brooker);


A par de The Handmaid's Tale, confesso ainda não ter concluído a quarta temporada de Black Mirror. Mas o segundo e terceiro episódios comprovam, mais uma vez, a versatilidade do criador Charlie Brooker na escrita. É que é ele que escreve todos os capítulos (muito diferentes entre si) deste regalo para a vista. E o respeito que Brooker tem pelos pormenores, pelos arcos narrativos e, sobretudo, pela estrutura das cenas e episódios é milimetricamente genial. Em Crocodile, por exemplo, vemos no início do segundo acto uma investigadora a ver o marido entrar com um hamster para o filho de ambos. O que parece ser uma cena completamente inócua, bem como cena em que o carro da investigadora tem problemas em arrancar, vai ter uma importância atroz na conclusão do episódio. Se estas pequenas "cenas-sementes" não existissem, o fruto colhido no final não seria, de todo, tão sumarento. E é este sumo, esta atenção redobrada, que falta a muitas séries - e que Black Mirror mostra ter em todos os episódios, impondo-se, novamente, como a melhor série em exibição.

Menções honrosas:

Bates Motel (episódio 5x06, Marion, escrito por Carlton Cuse e Kerry Ehrin);



13 Reasons Why (episódio 1x12, Tape 6, Side B, escrito por Elizabeth Benjamin);



Mr. Robot (episódio 3x05, eps3.4_runtime-error.r00, escrito por Kor Adana e Randolph Leon);



Orphan Black (episódio 5x07, Gag Or Throttle, escrito por Renée St. Cyr)



One Mississippi (episódio 2x02, Into The Light, escrito por Stephanie Allynne e Tig Notaro)



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