THE CIRCLE: COMO AS ADAPTAÇÕES DE UM REALITY SHOW ESPELHAM A SOCIEDADE DE CADA PAÍS
Em Análise 16:08Anunciado como o programa que alia a informação ao entretenimento, "Esta Manhã", surpreendentemente, cumpre o que promete. Mas será, isso, positivo?
Com estreia no início de 2021, o programa matinal da TVI começa, logo a partir das 07h, a casar a informação com o entretenimento. E fá-lo de uma forma fluidamente engrenada, denotando-se o cuidado na preparação do alinhamento do mesmo, todos os dias. A verdade é que este é um formato único e original nos canais portugueses em sinal aberto. Gostando-se, ou não, do casamento (o chamado infotainment), ninguém pode ousar dizer que este não é um matrimónio feliz.
Nuno Eiró e Sara Sousa Pinto apresentam-se, logo ao primeiro piscar de olhos do dia, como os anfitriões do programa, o fio que nos conduz às notícias, ao entretenimento, e à mistura dos dois mundos. Pedro Carvalhas assume o rosto da seriedade, da informação séria e factual, que entra logo depois das boas-vindas aos telespectadores, apresentando num registo clássico as principais notícias do dia. Todavia, muitas das vezes, com um sorriso ou uma palavra amável, o jornalista quebra a postura rígida e passa a emissão para os anfitriões, que ficam a cargo da condução do bloco da meteorologia, das entrevistas a figuras ligadas às notícias do momento, e do seu comentário. São também eles que fazem a ponte para a mal-aproveitada jornalista Susana Pinto, que, todos os dias, visita um local diferente de Portugal, sem razão aparente nem contexto algum. Por fim, o comentário das notícias cor-de-rosa internacionais, com Iva Domingues, passa também pela mão da dupla de apresentadores.
Dupla, essa, que tem uma grande margem de progressão: ao passo que Sara Sousa Pinto é, talvez, a figura do jornalismo mais adequada para este programa, representando a frescura, a telegenia e o futuro da profissão, a mesma deixa-se consumir pelo nervosismo, falando, amiudadas vezes, num tom baixo. Talvez o experiente Nuno Eiró contribua para esse recato da colega, uma vez que a ânsia do apresentador em intervir em todas as conversas faz com que se sobreponha a Sara, o que não é, de todo, salutar. Isto acaba por causar um certo desconforto e repulsa a quem vê o programa. E, como se sabe, o sucesso deste tipo de formatos passa muito pela dinâmica dos apresentadores.
Ainda assim, Eiró e Sara concedem vivacidade a "Esta Manhã" ao andarem por todo o cenário. No entanto, existe um espaço reservado especialmente à conversa entre os dois - e até à revista de imprensa. Composto por uma decoração entre o moderno e o retro, o cenário, em tudo, cria harmonia com o grafismo e o videowall do programa, sendo esta uma das maiores qualidades do matutino.
As intervenções de Iva Domingues, que têm melhorado com o passar dos dias, surgem na segunda metade do programa, altura em que se caminha para as 10h. Desta feita, a área dos fait-divers e do entretenimento acaba por estar inteligentemente mais presente do que a informação, uma vez que "Esta Manhã" tem de entregar, depois, o testemunho a "Dois Às 10", que é um programa exclusivamente de conversa e entretenimento.
É natural, como em todos os produtos inovadores, que o público, ao início, estranhe "Esta Manhã" - até porque, à hora em que é transmitido, os telespectadores, no afã de se arranjarem para irem trabalhar, ligam a televisão com o fito de ficarem informados o mais objectiva e rapidamente possível. Ora, ao sintonizarem este programa, correm o risco de ver convidados a cozinhar, ao invés de ficarem a par dos casos de Covid-19. Esta é, efectivamente, uma das limitações do programa, mas é contornável. E a solução passa, precisamente, pelo comentário. Se Eiró e Sara vestirem a pele do telespectador e desconstruírem cada uma das notícias sérias, vão contribuir para que haja espaço para a contextualização das mesmas - algo que é um dos principais calcanhares de Aquiles de toda a informação em Portugal. Desta feita, não só continuarão fiéis à premissa do formato, como informarão melhor o telespectador e farão, ainda, serviço público.
O empenho em se fazer bem este casamento entre informação e entretenimento, que há muito faltava em Portugal, é, de facto, surpreendente e de louvar. É que a TVI, ao anunciar os seus programas novos, é conhecida por prometer mundos e fundos, sendo que depois as expectativas saem goradas. Mas, com "Esta Manhã", a terra prometida é, efectivamente, cumprida.
"Esta Manhã" é transmitido de Segunda a Sexta, às 7h, na TVI.
Classificação:
😐*
*
🤢 - Péssimo
😰- Mau
😐- Razoável
😊- Bom
😍- Muito Vom
A mais recente e laureada aposta do canal ABC prova que, muitas vezes, o casting é essencial para o sucesso de uma série. É que Kiefer Sutherland, vivendo o protagonista Tom, um humilde membro do Gabinete dos Estados Unidos forçado a ser Presidente depois de uma hecatombe, entra por completo na pele do personagem. Fazendo com que nos liguemos a ele em todos os dilemas e decisões de vida ou morte que tem de, a contra-relógio, tomar.
Contudo, essa ligação ao personagem também está patente na escrita de David Guggenheim, praticamente desconhecido do público. No episódio-piloto, a relação de Tom com a família, nomeadamente com a mulher e a filha, é essencial para que o personagem tenha alma.
Ademais, a constante sensação de sobressalto acrescenta valor e marca competentemente o ritmo dos quatro episódios que, até agora, vi. Algo extremamente difícil de manter, especialmente numa série de um canal em sinal aberto, que dá primazia aos produtos mais folhetinescos.
Esse é, com efeito, o maior desafio da série. Como é possível uma história deste género durar várias temporadas, sendo que o ponto de central se coaduna simplesmente com a morte dos políticos da Casa Branca e a consequente tomada de posse do desconhecido Tom? Irá o mistério da explosão ser irrealmente eterno, bem como a adaptação do homem à vida presidencial? Se assim for, então esta série irá esgotar-se na primeira temporada. E irá ocorrer o que teimo em pôr sempre em evidência: Caso os guionistas só tenham pensado na história da primeira temporada, irão minar o seu trabalho para as temporadas futuras.
Penso que o tema da história passe pela perda da inocência. Que o objectivo principal dos argumentistas seja levar Tom numa viagem de auto-transformação, passando de um homem inócuo e bondoso a um tubarão calculista e traiçoeiro. Neste sentido, os intentos serão louváveis.
Mas, mais uma vez, alerto que é muito fácil resvalar para o cliché e para o melodrama barato. O facto de a maioria do elenco secundário ser pobre no que toca à arte de representar não abona a favor do produto.
Todavia, o que é certo é que em todos os episódios notei um brilhante balanço entre a exploração dos intentos de cada uma das personagens, do mistério da bomba que dizimou todos os políticos e da evolução do apaixonante Tom. A componente amorosa e light, presente em todas as séries da ABC, está também a ser tratada com pinças - manuseadas por mãos um tanto ao quanto trémulas, é certo - denotando um grande cuidado na percepção geral de cada capítulo e de toda a temporada.
Não é nem um Homeland nem um House of Cards, mas esta assume-se uma série comercial de valor acrescentado.
Designated Survivor é transmitida às quartas-feiras, na ABC.
Classificação: ★★★☆☆*
Tudo está mal. A começar pela apresentação das personagens principais e das razões da sua infelicidade matrimonial.
É que, mal a história começa, vemos apenas duas cenas que denotam a falta de química entre o casal de protagonistas: Primeiro, Robert, o marido, queixa-se de a mulher, Frances, estar a usar a casa-de-banho há imenso tempo. E ela, petulante, ignora-o.
Depois, vemo-los no carro a ouvir música. Robert desfruta do som elevado. E Frances desliga o rádio.
São apenas estas as informações que nos dão sobre as personagens. No momento seguinte, a acção foca-se numa festa de um casal problemático. Ao ver o culminar da discussão deles, Frances pede o divórcio a Robert, alegando não querer chegar a um ponto de saturação equivalente ao do dos amigos.
Com efeito, Frances pouco ou nada diz no episódio, mantendo-se numa bolha de passividade e observação, e Robert tem um ar de psicopata infeliz sem saber bem porquê. São os amigos do casal os verdadeiros protagonistas, roubando por completo as cenas em que surgem.
Só depois da "chamada para a aventura" é que descobrimos um pouco da vida da nossa pseudo-heroína: Tem, afinal, filhos, e um amante que só aparece a caminho do final do episódio. Amante, esse, surgindo numa única cena desprovida de sentido, que é, afinal, a razão principal de toda a zanga do casal (comprovada no segundo episódio), uma vez que Robert fica a par da traição da mulher e a expulsa de casa.
Estas informações - que, mesmo assim, são insuficientes para sentir empatia relativamente à protagonista - deveriam ter surgido em primeiro lugar no episódio. Para que nos enganchássemos na personagem principal, nas razões para o seu drama com o marido e na crescente tensão e vontade de romper com tudo.
Assim sendo, ficamos, primeiramente, com a ideia de que esta é a história de uma mulher desinteressante que está farta do marido, sem razão que o justifique, e que por isso se quer divorciar. Mas logo depois descobrimos que não é bem assim. Afinal, ela quer ficar com ele, mas como o homem descobre a traição e a põe fora de casa, esta é a história da luta dela contra o divórcio iminente.
Para além de que o trailer da série semeia uma ideia completamente diferente: a de que esta é a jornada de uma mulher que quer ter um divórcio bom e amigável, cujas expectativas saem goradas. E essa seria, com efeito, uma ideia original e potenciadora de momentos satisfatórios de comédia.
Honestamente, penso que nem os escritores sabem bem o que querem contar. Divorce é uma espécie de sopa, com uma mancheia de clichés matrimoniais triturados e temperados com desenxabidas, descompassadas e infelizes técnicas de escrita humorística, aliadas a um clima escuro e a um ritmo lento.
Ademais, os actores principais são péssimos. Sarah Jessica Parker mostra, mais uma vez, a sua inépcia para representar, ostentando apenas o cabelo Pantene, e Thomas Haden Church, ainda que se esforce, não consegue brilhar por si próprio.
Acredito que a história possa melhorar. Mas, até agora, este não passa de um produto que se esconde atrás de uma actriz principal famosa e de um clima sério para que pensemos que é bom. E nenhum telespectador com dois dedos de testa aceita casar com algo assim.
Divorce é transmitido aos Domingos, na HBO.
Classificação: ★☆☆☆☆*
Do argumentista dos filmes Tangled e Crazy, Stupid Love, o que Dan Fogelman melhor nos apresenta, nesta história de três famílias cujos problemas e passado se cruzam, são os diálogos e a forma como desconstroem as cenas melodramáticas que, noutras mãos, poderiam resvalar para o terreno do cliché e do blasé.
Numa das cenas do quarto episódio da trama, Toby enfurece-se por Kate, a namorada, ter arranjado trabalho na loja da ex-mulher dele, unicamente movida pela desconfiança e ciúme relativamente a ela. Temos uma discussão acesa, como esperado, culminando na confidência de Toby sobre o facto de a ex-mulher o ter traído, deixando-o à beira do suicídio.
Contudo, o desenlace é absolutamente genial. Toby senta-se ao lado da namorada, reconhecendo que elas trabalhariam bem juntas. E Kate, por seu turno, aproveita a deixa para lhe perguntar se pode ficar com o presente que a já-não-futura patroa lhe deu: Um portfolio. Toby reponde peremptoriamente que não, mas, ao afagar o objecto e ao sentir o couro, fica deleitado, baixando a guarda.
Esta forma aparentemente tosca, concernente ao modo como os personagens lidam com as situações de tensão, é absolutamente genial. É um chuto no melodrama, depois de ser reconhecido. Já para não falar dos diálogos sempre argutos e espirituosos, que conseguem metamorfosear o melodrama barato em algo inteligente. E, sejamos sinceros, uma série deste tipo brama por perspectivas originais.
É que temos um actor de televisão insatisfeito com o sucesso que tem, uma obesa com falta de auto-estima e um homem de negócios que encontra o pai que o abandonou quando era bebé.
Se não existissem estes vincos de frescura e um trabalho empenhado nas cenas, o produto pura e simplesmente não valeria a pena. E a cena de abertura do terceiro episódio é prova disto mesmo.
Nela, vemos como o pai biológico de Randall conheceu, apaixonou-se, e terminou o namoro com a sua mãe. Tudo se passa numa questão de minutos e sempre num autocarro, sem diálogo algum: Primeiramente, ao entrar no veículo, o homem e a mulher cruzam olhares interessados; depois, já os vemos sentarem-se ao lado um do outro; posteriormente, estão cúmplices, já namorados; entretanto vêmo-los de semblante mais carregado, ainda lado a lado; e, por fim, vemos o homem sozinho, bastante mais desajeitado e magro, segurando o bebé, pronto a ser abandonado.
Penso, sinceramente, que as séries muito emocionais são as mais difíceis de se escrever. Porque lidam com problemas, emoções e histórias de vida reais. O truque está no modo como as situações nos são apresentadas e no balanço das emoções e dos comportamentos das personagens.
Admito que a série possa esgotar-se facilmente, caso se perca o engenho nas várias nuances sentimentais em cada cena, nas pausas, nas acções, nas interpretações, no objectivo da série, até porque o conceito não é, de todo, original. Mas, por ora, é talvez a grande série estreante do ano.
This Is Us é transmitido na NBC, às terças-feiras.
Classificação: ★★★★☆*