A QUALIDADE DOS DEFEITOS (CRÍTICA A TRANSPARENT)

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Embora em muitas das cenas não o pareça, Transparent é uma comédia. E uma das melhores produções dos últimos anos.

Desconcertante e desconcertada, a série de Jill Soloway tinha tudo para ser um melodrama languidamente didáctico. Mas, em vez disso, temos uma série pioneira em todas as frentes e que, já na terceira temporada, não se esgota.


O melhor de Transparent não é, nem o facto de a personagem principal ser transgénero, nem Jeffrey Tambor ter o papel mais desafiante dos últimos tempos, nem tampouco o facto de pertencer à Amazon, existente apenas no mundo cibernético.
É o tema.
É que esta é bem mais do que a simples história de Mort, um pai de família que, inopinadamente, decide revelar à família que se sente mulher e não homem; é a história de uma família podre em valores morais, egoísta, que, ao se ir transformando ao ritmo de Mort para Maura, põe a descoberto toda a vileza que em todos medra.


A personagem Mort/Maura é tratada com pinças. Com toda a humanidade que um personagem de ficção pode ter. Não é a típica transsexual vitimizada pela sociedade e que merece ser feliz. Tem várias camadas de egoísmo e necessidade de atenção, que ofuscam toda a candura que possa existir à sua volta. E é isto que a humaniza.
Ora, uma personagem com esta complexidade e força só brilha se for manejada com mestria. E, nisso, a escrita é brilhante. O modo como o tema de cada um dos episódios afecta e cruza os personagens é uma lição de argumento para qualquer um. Para além de que a realização suave, mas vincada, faz da história um regalo para a vista.


E, quando pensamos que estamos a ver um drama e não uma comédia - temas como a violação, o divórcio ou a falta de amor próprio são pesados - basta uma curta fala néscia para desconstruir tudo:
Numa cena entre Maura e o cirurgião plástico, na qual a mulher vê no computador como irá ficar a sua cara - bem mais feminina - depois da operação, a mulher diz que gostaria de doar a sua pele em excesso para investigação, chocando o médico; o modo como ela mostra as imagens da pós-futura operação a toda a gente, ignorando toda a dor física que as intervenções lhe vão provocar, são exemplos da híper-inteligente e omnipresente comédia de carácter.


A fascinante viagem físico-psicológica de Maura, bem como os seus filhos com problemas emocionais brutalmente originais - sempre relativos à sexualidade - não nos torna possível a visualização de apenas um episódio. Temos de ver a série em catadupa.
Felizmente, a Amazon disponibiliza toda a temporada no mesmo dia, para que o tragamento possa assim ser feito.


Transparent põe em causa questões socio-culturais, mostra-nos caminhos de vida novos e personagens em constante transformação, como não vemos em mais lado nenhum. E que, sem dúvida, também nos transformam a nós.

Transparent está disponível na Amazon e vai já na terceira temporada.

Avaliação: *


*
☆☆☆☆☆- Péssimo
★☆☆☆☆- Mau
★★☆☆☆- Razoável
★★★☆☆- Bom
★★★★☆- Muito Bom
★★★★★- Excelente

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